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O Romário (técnico) do lado de lá*

* Texto escrito por Victor El Chapa Zapata

Hoje um dos temas em voga no futebol brasileiro é a ascensão de Romário ao cargo de treinador do Vasco da Gama do Rio. Muito se comenta sobre a atividade noturna do craque e se ele teria moral para pedir aos seus comandados que descansassem e que não caíssem na noite com tanta freqüência. “- Pô, logo o Baixinho, o maior pegador do Rio, pedindo para o Morais pegar leve!” Eu acho tudo isso uma grande babaquice e comprova que o futebol aqui ainda é de um conservadorismo enorme (vide os casos Ana Paula Oliveira e Richarlyson). Com o conhecimento que acumulou nos campos, somando a convivência com técnicos do porte de Cruyff, Hiddink, Parreira e até Joel Santana e sua inteligência fora do normal, o Peixe tem tudo para marcar época como Mister no Brasil.

Para que possa parecer legítima a aposta no camisa 11, vale lembrar o exemplo de Héctor “Bambino” Veira, um dos maiores malandros do futebol argentino. Bambino, nascido em 1946 foi uma figura histórica do San Lorenzo como jogador, onde atuou de 1963 a 1970, e como técnico, entre 1991 e 1996, quando dirigiu o brasileiro Silas. Veira é uma figura folclórica, pois já nos seus tempos de Ciclón era um baladeiro inveterado e junto a Doval (que depois viria a ser ídolo no Flamengo e também no Fluminense) era sempre visto “patrulhando” na noite, em suas próprias palavras. Nos seus melhores anos, enquanto os outros jogadores treinavam, ele dormia ao sol recuperando-se da intensa atividade notívaga e ainda bradava aos companheiros: “- Corram e dêem o melhor de si, porque para algo vocês se cuidam!” Depois, em campo, sempre respondia e por isso era respeitado. É claro que, sem o talento do Baixinho, sua carreira nos campos minguou um pouco mais cedo e, depois de uma peregrinação que incluiu passagens pelos “competitivos” campeonatos da Guatemala e Chile, até uma passagem relâmpago pelo Corinthians chegou a ter.

Em 1980, finda a carreira nos gramados, aconteceu o que muitos achavam inimaginável: Bambino, famoso por seu estilo “malandro portenho” e informal, assumiu como técnico do San Lorenzo, o clube onde havia brilhado! Isso foi uma manobra arriscada e que acabou rendendo apenas um vice-campeonato Metropolitano no ano de 1983. Em 1984, o “Bamba” assinava com o Vélez Sársfield, no que seria apenas uma transição para os anos de maior sucesso em sua carreira.

Em 1985, o River Plate, maior clube do mundo, então presidido por Hugo Santilli, choca a República Argentina ao contratar para técnico do time Héctor Rodolfo Veira. Em Nuñez, na maioria das vezes a solução foi sempre trazer técnicos formados em casa. Vez ou outra, no entanto, a tradição era quebrada (como no caso do grande Didi no começo dos anos 70, que se bem não conseguiu ganhar qualquer título, lançou dois grandes ídolos do clube, Reinaldo Carlos Merlo e Daniel Alberto Passarella). Pois bem, a revolução feita por Bambino logo surtiria efeito e o River já apresenta um grande time que vence o Campeonato Nacional 1985-1986, mesclando os talentos novos como Caniggia, Troglio, Gorosito, Funes e Goycochea, com jogadores experientes como Alonso ,Pumpido, Ruggeri, Morresi, Alzamendi e Francescoli. O River encantava a Argentina com um belo futebol e com seu técnico que sempre fora o rei da noite mas sempre soube separar muito bem as coisas, assim podendo ser uma referência aos seus jogadores. Mas a coisa não parou por aí e em 1986 o River também venceu a Copa Libertadores da América e a Copa Toyota no Japão.

Bambino não precisava mais provar nada a ninguém. O Boêmio triunfara ante os críticos incrédulos. Tinha vindo a um time grande, com tradição de só entregar o banco de reservas a alguém com muita história (“del riñon del club”), e superou tudo isso com muito conhecimento do que é o futebol, seus meandros, seus caminhos e descaminhos. Algum dia posso contar o resto da história, mas para mim o Bamba podia ter se retirado em 1987 quando nos abandonou. Ele ainda participaria de muitas histórias, algumas felizes, outras nem tanto. Hoje é comentarista da Fox Sports e é idolatrado por suas frases e seu estilo peculiar.

Por isso digo-lhes que Romário pode ser um grande fenômeno como treinador. Porque sabe que não adianta dormir cedo se, na hora H, sobrar disposição e energia e faltar o essencial: a capacidade técnica! Pode acreditar.

Salu2

PS.

Vou deixar algumas frases célebres do Bambino

- Viram o que é este garoto? Vai, vem, vai e vem. Parece uma autopista!

- Em Buenos Aires está fazendo um calor terrível. Até o Tarzan passou mal!

- Diego (Maradona) está treinando muito forte, parece até Rocky II.

- O que eu acho deste hotel? Um pouco velhinho. Aqui mataram o Drácula!

Em conversa com o jogador Arbarello, do San Lorenzo, quando este foi substituído:

(Arbarello) – Professor por que você me tirou?

(Bambino) – Filho, você tem que me perguntar por que eu te coloquei!

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(*) Victor “El Chapa” Zapata é argentino mas mora no Brasil há muitos anos. Amante do esporte e torcedor fanático, é vice-presidente da Torcida do River Plate no Brasil e considerado uma enciclopédia do futebol. Foi campeão argentino de gamão e hoje é jogador profissional de poker (viaja o mundo jogando torneios e aproveita para assistir à partidas de “qualquer time, em qualquer lugar”).

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