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Junte-se a milhares de pessoas que vão comandar um time de futebol de verdade no Brasil

De todas as coisas sem importância, o futebol é a mais importante*

* Texto escrito por Claudio Quintino Crow

Ao que tudo indica, a frase acima, popularizada por um conhecido jornalista esportivo, parece ser verdadeira – basta ver a enorme quantidade de pessoas que se interessam pelo “beautiful game“, como os ingleses chamam sua mais pródiga invenção, para concordar com a frase de efeito. O futebol é o esporte mais popular do mundo, sendo praticado em virtualmente todos os continentes, e a FIFA tem hoje mais nações associadas do que a própria ONU. As cifras movimentadas globalmente em torneios, patrocínios, transações comerciais, premiações e transmissões de rádio e TV envolvendo o futebol são astronômicas. Tudo isso, que aparentemente justifica a frase que abre este artigo, na verdade exige que discordemos dela. Como assim sem importância?

“Apenas um jogo”?
Ok, o futebol é “apenas um jogo”, e jogos são, na maioria das vezes, apenas entretenimento, certo? Errado! Afirmar isso é desconhecer as próprias origens da atividade esportiva e sua importância para a humanidade. Todos os esportes – o futebol, claro, entre eles – surgiram como modo de se manter a forma física e mental, de se desenvolver as habilidades necessárias à própria sobrevivência daquele indivíduo ou grupo. As modalidades olímpicas clássicas são, na verdade, exibições de destreza militar – arremesso de lanças e pesos, saltos, corridas, lutas: atividades que faziam parte do dia-a-dia dos guerreiros da antigüidade. O mesmo se aplica às origens do futebol – seja na China do “Imperador Amarelo”, na Florença Medieval ou na Inglaterra de 200 anos atrás. A função do futebol sempre foi, basicamente, a de mostrar aos demais “quem é que manda”. E quem manda, desde que o mundo é mundo, é o mais forte. Era para provar sua força que os legionários romanos praticavam o “Harpastumâ€, assim como antes os soldados gregos haviam jogado o “Sferomachiaâ€. A superioridade militar, portanto, é o primeiro elemento fundamental das origens do futebol.

Um Jogo Divino
Quatro mil anos antes de gregos e romanos, um outro guerreiro, desta vez da China, ganhou a eternidade ao ter sua imagem gravada no baixo relevo que orna seu túmulo no interior da China como uma das primeiras “estrelas†do futebol, graças a sua destreza e habilidade com a bola nos pés. E a eternidade, como se sabe, é para os deuses e uns poucos heróis mortais. Portanto, desde suas mais remotas origens, o futebol tem um componente espiritual muito forte. Prova disso é o caráter sagrado dos jogos de bola de maias e astecas, que reproduziam as disputas entre as polaridades do universo – a coisa era tão séria que, naquelas disputas, os atletas do time perdedor tinham suas cabeças cortadas (e ainda há profissionais hoje que reclamam da falta de premiação). Portanto, a paixão espiritual é o segundo componente que acompanha o futebol desde suas origens.

Foi na cidade italiana de Florença que esses dois componentes – a força militar e a paixão espiritual – se uniram pela primeira vez de forma bem clara, nas disputadíssimas partidas do Calcio Storico florentino. As primeiras partidas do “Calcio in Livrea†(outro nome para o Calcio Storico) ocorriam às portas da Grande Catedral de Santa Croce, disputadas entre os times dos quatro quartieri de Florença: Santa Maria, Santo Giovanni, Santa Croce e Santo Spirito. Os times eram compostos pelos homens nobres da cidade, inclusive por alguns futuros papas. O componente espiritual é evidenciado pelos nomes dos times (Santa Maria, São João, Santa Cruz, Santo Espírito), pela presença de homens santos nos esquadrões e pelo local onde eram disputados os jogos. E o elemento militar fica por conta da disputa acirrada pelo poder entre as famílias de nobres florentinos (neste aspecto, cabe aqui lembrar uma partida de Calcio in Livrea marcante: em 1541, Florença, à época uma república independente, estava sitiada pelas forças imperiais. No dia do padroeiro da cidade (17 de fevereiro), a despeito da situação de sítio, os florentinos disputaram uma partida de calcio diante dos olhos do inimigo, em tom de desafio e provocação). E mesmo na Inglaterra, berço do futebol moderno, esses dois componentes podem ser facilmente identificados.

O Berço do Futebol
As origens do futebol inglês (vale dizer, do moderno futebol que se pratica no mundo todo) se perdem na noite dos tempos. Desde a Idade Média era usual que duas aldeias vizinhas disputassem a supremacia de uma dada região tanto em termos políticos quanto em termos culturais, econômicos, religiosos e, claro, militares. Além de promoverem guerras e agricultura e de erguerem igrejas e universidades, uma forma de as populações dessas vilas se equipararem era através de uma estranha disputa que envolvia praticamente todos os habitantes de ambas as cidades, cujo objetivo era carregar uma bola até a praça central da cidade adversária. Era por isso chamado de “o jogo das massas”, termo que mais tarde seria aplicado ao futebol moderno, com outra conotação.

Jogos semelhantes foram registrados também na França medieval, e em todos os casos, valia praticamente de tudo para empurrar a bola a seu objetivo. Foi somente no século XIX que surgiram as primeiras regras para a prática do jogo de futebol, com a redução no número de participantes – de uma média de 6.328 habitantes para apenas onze jogadores por equipe – além de regras para a condução da bola e a substituição das praças centrais das cidades por dois postes paralelos encimados por uma trave. Estamos em 1830, na Escola Harrow. Menos de dez anos se passariam para que essas regras fossem padronizadas, e em 1838, fundou-se o Sheffield FC, o primeiro clube dedicado exclusivamente à prática do futebol. 1862 assistiu à consolidação das regras do futebol moderno (não por acaso, no interior de um pub londrino); em 1888 surgiria a primeira liga profissional e dali por diante o futebol se espalha por todo o planeta. Mas o que levou o futebol a atingir tamanha popularidade em tão pouco tempo?

Império do Futebol
Em primeiro lugar, como adora alardear a própria FIFA, porque “o futebol é um jogo simples e barato”. Com efeito, quem deseja jogar futebol não precisa de equipamentos especiais nem de grandes espaços: basta uma pequena área suficientemente plana e aberta, algumas pessoas e um objeto remotamente esférico para que se tenha uma disputa de futebol. Mas é importante lembrar que o real motivo da globalização do futebol atende pelo pomposo nome de “Império Britânico”, aquele onde “o sol nunca se põe”, pois se estendia por todos os continentes do planeta. O Império Britânico desenvolveu-se especialmente no século XIX, no período Vitoriano – o mesmo que assistiu aos eventos descritos no parágrafo acima. Foram os soldados (poder militar) e missionários (paixão religiosa) que primeiro levaram o futebol às colônias inglesas ao redor do planeta. Não é de estranhar, portanto, que a primeira partida de futebol na América do Sul tenha sido disputada na Argentina – à época, praticamente uma colônia britânica – no ano de 1867.

Também foi um filho de ingleses que trouxe o futebol ao Brasil: Charles Miller, a quem devemos o prazer e a glória de sermos a maior nação futebolística do planeta. Os primeiros campeões mundiais – os uruguaios – também herdaram o futebol de um professor inglês; e assim vai. Esqueça a noção de que impérios sempre são ruins: o Império Britânico, pelo menos, ajudou a formar o mundo como ele é e nos deu o futebol (aliás, uma boa forma de conhecer o caráter de um povo é saber se eles gostam de futebol – o que nos diz muito sobre o atual – e decadente – “império†dominante e suas “bolas”[?] ovais).

Já no século XX, em plena Primeira Grande Guerra, ocorreu um fato marcante que, mais uma vez, une os componentes religioso e militar do futebol: 24 de dezembro de 1914. De um lado, as tropas alemãs; do outro, soldados ingleses; e entre eles, o horror da primeira guerra mecanizada da história – e o desejo comum de por fim àquele insano conflito. Numa trégua extra-oficial para celebrar o Natal, soldados de ambos os lados saem de suas trincheiras para se confraternizar, trocar presentes e celebrar a paz – ainda que por uns poucos minutos. E nesses poucos minutos, algum esperançoso cadete trouxe uma bola de futebol para uma partida que entrou para a história como o mais importante dos “amistosos†já disputados. Durou pouco: no dia seguinte, cada qual estava de seu lado das trincheiras disparando freneticamente suas modernas metralhadoras… e eis que surge o terceiro elemento das origens do futebol: a Paz.

Paz
Pode parecer paradoxal – e até contraditório – que o componente da Paz se junte aos dois anteriores: força militar e paixão religiosa. Afinal, a força militar é antagônica à Paz e a paixão religiosa é, em tempos recentes, a maior fomentadora de conflitos nos quatro cantos do mundo. Curiosamente, porém, o futebol é justamente um dos poucos fatores humanos capazes de controlar os ímpetos violentos e o fanatismo religioso onde quer que se vá. O Santos de Pelé parou conflitos na Ãfrica, a Seleção Brasileira trouxe uma trégua ao Haiti, os Estados Unidos enfrentaram o velho inimigo Irã em uma Copa do Mundo – os exemplos são muitos. É claro que, do outro lado do espectro, temos guerras que começam justamente graças ao futebol, como o confronto na América Central na década de Setenta – mas estas são exceções.
Isto porque, no mais das vezes, o futebol, com suas regras civilizadas, acabou por substituir os confrontos de ordem tribal entre as vilas medievais inglesas, ou a luta pelo poder das famílias nobres de Florença. Não é acaso que uma partida de futebol tem, excetuadas as armas, todos os componentes de uma batalha medieval: dois exércitos uniformizados, estandartes, cânticos, tambores, palavras de ordem, hinos…

Em contraponto, numa época tão desespiritualizada como a nossa, em que a religião passou a ser meramente um rótulo no censo ou uma atividade de lazer dominical, o futebol serve de válvula de escape para que cada um de nós dê vazão à sua necessidade de realmente pertencer a uma fé, de por para fora nosso desejo primitivo de cultuar nossos heróis – deuses – que praticam verdadeiros milagres com a bola nos pés.

Fica então fácil entender como o futebol é capaz de unir harmoniosamente esses três componentes: a força militar é canalizada pela abstração da vitória e da conquista do nosso time em campo – “Feliz a nação cuja noção de vitória seja uma bola cruzando uma linha!” – ao mesmo tempo em que fornece para muitos de nós o êxtase quase religioso de amar um time com a paixão e a dedicação que caracteriza os ascetas. O resultado? A Paz. Ainda que nem todos entendam, a essência do futebol é promover a paz.

Linguagem Universal
Diz o ditado que a música é a linguagem universal: afinal, todos os povos, todas as culturas de todos os continentes, em todos os tempos, possuem sua própria forma de música. No cinema, foi a música que nos possibilitou o contato até com seres de outro planeta! Ainda que haja uma ponta de verdade no ditado, porém, me vejo na obrigação de discordar: como músico amador, procuro conhecer as mais diferentes manifestações musicais, em especial àquelas mais “primitivasâ€. E posso afirmar que há diferenças irreconciliáveis para os ouvidos ocidentais ao ouvir, por exemplo, a música tradicional japonesa, ou mesmo de algumas culturas africanas – as diferenças harmônicas e rítmicas são muito acentuadas. Qual seria então a verdadeira linguagem universal? Qual atividade humana é comum a todos os povos em todos os lugares? Em primeiro lugar, vem o sorriso. Em segundo, o futebol: em visita a qualquer lugar do mundo, mesmo que você não fale o idioma local, mesmo que ali creiam em deuses diferentes, mesmo que seus ideais políticos sejam outros, se você parar ao lado de um campo e pedir para jogar futebol, todos falarão a mesma língua – com os pés.

Santo Graal
Não por acaso, a maior celebração da linguagem universal do futebol é a Copa do Mundo, da qual sonham participar praticamente todas as nações do mundo – até mesmo aquelas não associadas à ONU. Uma Copa, uma taça, um Graal que, como nos contos celtas, traz felicidade a quem o alcança. Durante sua disputa, o fervor religioso leva toda a população a trajar as cores do seu time, unindo ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, vegetarianos e carnívoros, de esquerda ou direita, corintianos e palmeirenses, a assistir em Paz. A vitória traz a todos a sensação de poder, traz o êxtase espiritual. A derrota traz a todos a humilhação e a compaixão. Afinal, essas emoções são alguns dos principais componentes da experiência humana em todos os tempos – e todos eles se encontram no futebol, de forma civilizada, mas passional, religiosa, mas profana, fútil, mas fundamental.
Coisa Sem Importância? Não, senhor: O futebol é a síntese da experiência humana. É por isso que é, dentre todas as coisas importantes da vida, a mais importante! Alguém discorda?

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(*) Claudio Quintino Crow, 39, é escritor e instrutor de druidismo, historiador amador, peladeiro e apaixonado por futebol – não necessariamente nessa ordem. (contato@claudiocrow.com.br)

2 comentários para “De todas as coisas sem importância, o futebol é a mais importante*”

  1. Você conseguiu saber quem é o autor verdadeiro da frase?

  2. ROMEU ROMEU disse:

    Não por acaso, a maior celebração da linguagem universal do futebol é a Copa do Mundo, da qual sonham participar praticamente todas as nações do mundo – até mesmo aquelas não associadas à ONU. Uma Copa, uma taça, um Graal que, como nos contos celtas, traz felicidade a quem o alcança. Durante sua disputa, o fervor religioso leva toda a população a trajar as cores do seu time, unindo ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, vegetarianos e carnívoros, de esquerda ou direita, corintianos e palmeirenses, a assistir em Paz. A vitória traz a todos a sensação de poder, traz o êxtase espiritual. A derrota traz a todos a humilhação e a compaixão. Afinal, essas emoções são alguns dos principais componentes da experiência humana em todos os tempos – e todos eles se encontram no futebol, de forma civilizada, mas passional, religiosa, mas profana, fútil, mas fundamental.
    Coisa Sem Importância? Não, senhor: O futebol é a síntese da experiência humana. É por isso que é, dentre todas as coisas importantes da vida, a mais importante! Alguém discorda?

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